terça-feira, 18 de maio de 2010

CRUZ

É curioso que haja quem escreva para sobreviver, na medida em que a escrita é uma forma de subvida. Escrevemos, por um lado, para nos espelharmos, admitindo assim que há uma espécie de relação horizontal, olhos nos olhos, entre o escritor e a escrita. Mas rapidamente verificamos que a relação vertical também existe, na medida em que escrever é ver o mais baixo a que nos deixamos ir. E o espelho também aí nos devolve a imagem oposta: quanto mais baixo nos permitirmos ir, mais alto chegamos.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

DENSO, LOGO HESITO

O ar está com uma consistência estranha, parece gelatina. Pergunto-me se quererá que o coma, mas a verdade é que não o como, como quem não quer saber a verdade.

LER COMO SER

Penso se um dos trunfos da escrita não será o facto de que quem lê está envolvido na leitura e, dentro da dinâmica própria em que a leitura se processa, não tem tempo para reflectir sobre o que vem a seguir. Refiro-me, concretamente, a estes textos que escrevo. À medida que os vou escrevendo, cada uma das palavras impressas me ecoa na cabeça e, como qualquer eco, traz uma aparência indefinida, dividida ou multiplicada, não sei, mas em que são perceptíveis várias derivações, relações profícuas, como quando se atira uma pedra a um rio e os círculos nascem uns dos outros, trementes, nunca parados, mas suficientemente nítidos para os podermos cristalizar na memória e, depois, se for caso disso, fazermos uso deles. Mais ou menos assim é, aliás, a vida: nunca pára, não dá para apanharmos verdadeiramente nada a não ser essas impressões e, depois, se for caso disso, fazermos uso delas. Será a vida um eco? Não sei. Mas também não era por aí que eu ia. Dizia eu que as palavras escritas, ecoando-me na cabeça, trazem-me à superfície da consciência palavras da sua família, ou etimológica ou que com elas rimem, não sei, tal é também a indefinição do critério que preside a essas relações. Sei que, por isso, a minha tendência é, muitas vezes, agarrá-las, como quem ampara estrelas cadentes do seu próprio céu, e acolhê-las no mesmo sítio onde ficaram as outras, ou seja, no papel (definição romântica de ecrã de computador). Estabeleço, eu próprio, assim, outras relações, ecos de relações, ecos de ecos. Acho que quem se dedicar ao estudo disto pode resgatar para a sua ciência o nome de ecologia. Faz mais sentido aí do que onde está hoje. Mas voltemos à questão: quem me lê não tem tempo para se aperceber dos ecos da leitura. Ou melhor, aperceber-se até se apercebe, mas lê logo a seguir aquilo de que se poderia ter lembrado, ou outra coisa. Provavelmente, perde um eco mas ganha um eco de um eco perdido. Donde, e agora recuperando a ideia inicial, talvez um dos trunfos da escrita seja fazer o leitor ver os ecos da vida a passarem-lhe pelos olhos sem que tenha tempo nem vontade de os apanhar. Os ecos são as oportunidades da vida. E, como tudo na vida, fazem eco.

O MEU BOCADO

Muitas vezes tive a tentação de me juntar a alguém com sucesso, alguém que me pudesse atrelar, por piedade ou, de preferência, por me reconhecer valor, e levar-me aonde eu sozinho nunca conseguiria chegar. Mas algo, nessas alturas, me dizia que, uma vez cometido esse acto de compaixão, eu ficaria com uma dívida de gratidão para com a pessoa em causa e moralmente obrigado a não a deixar ficar mal, o que transportaria o padrão de sucesso da operação para ela e não para mim, ou seja, todo o meu percurso a partir daí se mediria pelos passos do meu salvador e não pelos meus. Eu deixaria de ir a reboque da minha exigência e passaria a ir a reboque da dele, ou até, na pior das hipóteses, a reboque da minha exigência projectada nele, que seria igual à minha exigência multiplicada pelas vezes que o achava a ele melhor do que eu. Sim, porque só se justificava aceitar a sua oportunidade se o achasse melhor do que eu. A minha exigência nunca me deixaria pensar: ok, o projecto é dele, por isso já não preciso de me cobrar tanto. Pelo contrário: nesse caso, haveria uma factura dois-em-um para um eventual sucesso um-em-dois. Nada disto significa individualismo, não se confunda o que digo. Significa, sim, consciência da dimensão do indivíduo, nos seus deveres para consigo e para com os outros. Antes de mais, a nossa luta (talvez fosse melhor dizer a minha, por razões de coerência) deve ser para connosco, no sentido de nos tornarmos um projecto de sucesso para consumo interno, de nos construirmos passo nosso a passo nosso, sabendo que podemos infligir os golpes que quisermos no silêncio que ele, como um desenho animado, se reconstitui sempre, volta sempre à forma inicial e última, enquanto nós crescemos, mudamos e nos moldamos golpe a golpe. Já não sei quem o escreveu (aliás, veio esta semana citado num jornal desportivo), mas "saber mais é ser mais", e (como diria La Palisse, que também poderia ter escrito a frase anterior) só se é se se for, devendo este "for" ser lido na sua dupla acepção, ontológica (ser) e accional (ir). Ir sendo ou ser indo, portanto. Sem rebocar e sem ser rebocado. A experiência, a minha, claro, faz-me dar um toque pessoal a uma célebre lição moral de uma das fábulas de La Fontaine: "Guardado está o rebocado para quem o há-de comer". Não vão por mim.

terça-feira, 11 de maio de 2010

BOLAS

Três bolas de futebol numa varanda compreendem melhor a noite do que eu. Eu vejo-as através do vidro, elas vivem-na. São planetas pousados, cansados de levar pontapés. Eu penso nestas coisas, penso em palavras para descrever o que vejo, esquecendo-me de que enquanto penso não vejo. Quando me lembro, deixo de pensar, vejo apenas. Mas ao primeiro sobressalto emotivo já estou de novo no planeta das palavras, tentando traduzir verbalmente o que senti.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

E PUR SI MUOVE

Hoje entendo a expressão "parar é morrer" num sentido distinto daquele em que a entendia quando comecei a escrever esta frase. Podia agora parar por aqui que a dita (ou escrita) frase não morreria. Provavelmente viveria até mais e melhor do que com o seguimento que lhe vou dar, mas apetece-me discorrer sobre o assunto. É como quando uma pessoa come mais do que o suficiente porque lhe está a dar prazer. Ora, dizia (ou escrevia) eu que entendo a expressão "parar é morrer" de modo diferente daquele em que a entendia quando comecei a escrever a primeira frase deste texto - e agora acrescento que a última também. A vida é toda ela dinâmica, estejamos nós parados (que nunca estamos) ou em plena actividade. Mas, como somos materialistas, interpretamos as coisas sentidas, ditas, escritas e feitas no seu significado mais material. "Parar é morrer" torna-se, então, igual a dizer que quem não trabalha é um inútil, que quem contempla "mata" tempo. Por isso, há que andar, há que sair do sítio, fugir para a frente. Há que fazer coisas paradas, senão param-nos elas a nós, que isto é matar ou morrer. Cristalizamos imagens, sons, formas e tudo o mais. Chegamos até à suprema ironia (é quase sadismo) de fazer coisas paradas que nos ajudam a andar. Sapatos, por exemplo. Tudo o que construímos é parado: mesmo os meios de transporte, do triciclo ao foguetão. Às vezes concebemos compostos que, dentro do nosso filtro perceptivo, se mostram fluídos, em movimento, mas as substâncias que lhes conferem essa propriedade já existiam, já fluíam, já se moviam. Pensemos agora nalguns dos trabalhos ditos mais criativos. Pensemos nas artes plásticas, na música, na literatura. Um pintor é-o, reconhecidamente, quando expõe um quadro. Uma banda consagra-se quando edita um disco. Um escritor quando publica um livro. Ou seja, estamos vivos quando matamos coisas. Porque é com coisas mortas que as pessoas vivas vivem e, nesse sentido, ao matarmo-las (às coisas, não às pessoas) estamos a fazer com que outras pessoas possam viver. Em tudo isto, claro, o dinheiro exerce um papel fundamental. Se eu pago para ir a uma exposição, legitimo essa condição de ser vivo, mesmo contemplando. Se eu compro um livro ou um disco a mesma coisa, até subo na consideração dos meus circundantes porque posso assim falar de matérias "não dadas", em duplo sentido (a pirataria, nesse aspecto, é claramente um mal que veio por bem). Já se eu paro sobre um rochedo a olhar o rio, sou um mandrião. Ninguém me convence, aliás, de que boa parte da popularidade que a pesca de cana ainda tem não se explica pelo facto de proporcionar, com a busca de alimento, uma excelente desculpa para as pessoas pararem sem que as acusem de morrer. Estão a fazer alguma coisa (ou a matar - no caso, peixe). Por isso, e sem querer fazer deste texto um manifesto, uma apologia ou uma posição de princípio, dando-lhe uma importância que ele não tem, até porque o meu entendimento sobre ele já não é exactamente o mesmo de quando o escrevi e não posso, assim, subscrevê-lo na íntegra, sugiro, para o terminar e assumi-lo como produzido, completo, pronto a servir (e desse modo furtar-me, eu próprio, às acusações de calaceiro, morto-vivo ou coisa que o valha), a admissão de uma expressão na frequência de vibração oposta à inicialmente citada ("parar é morrer"), e que seria "mover-se é matar". Dito (ou escrito) isto, páro. E, curiosamente, para muitos dos meus potenciais leitores, é agora que começo a viver.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

DE UMA CONTA A OUTRA

As suas contas cada um que as carregue, mas há contas sem ponta por onde se lhes pegue. Se eu pudesse pagá-las em simpatia, pois nada me importaria, só que além de eu saber que ninguém a aceitaria, sei também que não ma devolveria. Faria dela refém, e com ela ficaria, quem de mim não recebesse, a mal ou a bem, tudo quanto lhe cabia. Eu, por mais voltas que desse, só novamente a veria quando me resolvesse a pôr as contas em dia. Mas se, de repente, me saísse a lotaria, toda aquela gente me perdoaria a dívida pendente, esperando que tal simpatia, por ser de categoria, me enchesse de gratidão, a ponto de abrir a mão e, literalmente, tornar a conta corrente. Então, se eu aumentasse a quantia e, por juros de não-cobrança, lhes desse mais do que devia, até mostrar cagança poderia, que à santidade o meu bom nome subiria. Na verdade, assim é a nossa Bolsa de Valores: uma valsa de cobrados e cobradores. Quem melhor a dança é quem não tem amores para além da finança. É uma fidelidade cómica, mas dela vive o fiel da balança económica. A nós, pecadores, não nos resta outra saída senão amar a balança da vida, esperando que seja devida a frase que desde criança por todos nós é ouvida: 'Enquanto há vida, há esperança!'.