Na máquina de sujar em que estamos metidos, o stress é o glutão mais eficaz. Tira a mais pequena nódoa de limpeza num abrir e fechar de olhos. Com a desvantagem de que nem é preciso comprar. Ele vende-se. É completo. Produto e promotor, tudo incorporado, dois-em-um que divide como quem corta relva e une como quem varre o chão. Sem darmos por ela, fez de nós seus aliados na luta contra o tempo: nós crentes de que a luta era contra a passagem do tempo, ele ciente de que a luta era contra o seu aparecimento. Uma coisa e outra, claro, são inúteis. No limite, tudo é: o stress não vive menos iludido do que nós. Ele, como o tempo, como nós, também passa. E talvez a melhor maneira de lhe mostrar isso seja fazê-lo crer, como ele nos faz em relação ao tempo, que lutamos contra a sua passagem, estando cientes de que lutamos contra o seu aparecimento. Por outras palavras, viver bem na sua companhia. Dar-lhe o melhor. Dar-lhe amor. Dar-lhe tempo.
Um dia destes fui sujeito a um banho prolongado de lugares-comuns, cascata refrescante de palavras sobre o meu corpo confuso, cansado, sujo. De início, lutei contra o paradoxo de palavras mais velhas do que a sua sombra me tirarem anos (não de vida, mas) de cima dos ombros. No fim, rendi-me à mensagem-massagem que por mim escorria: todos vivemos num lugar-comum. Para quê, então, sofisticar? Para quê o requinte da ironia, o verniz do cinismo? Para quê escondermo-nos neles, se nos deixam tão expostos como as mãos de um bebé que tapa os olhos para se tornar invisível?
Se tudo passa, se até o stress passa, se até a vida passa, o interesse dos outros não fugirá à regra (a fugir, será para mostrar que a regra também passa). O interesse que nos interessa e o que não. O stress que nos stressa e o que não. As obsessões, as paixões, as alegrias, as tristezas, os rios, os mares, as chuvas, os sóis, as tempestades, os fogos, os corpos, as almas, as verdades, as mentiras, as ciências, as religiões. Os conceitos. Os preconceitos.
Agarremo-nos, portanto, a um único (e o maior) contra-senso: a consciência de que tudo passa. É verdade que, se tudo passa, a consciência também, mas aproveitemos o contra-senso no seu todo, ou seja, corpo e significado. No corpo, aproveitemos o hífen como ponte e passemos do contra para o senso. Pode ser que, lá chegados, o significado seja outro. Se não for, seja como for, há-de passar.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
quarta-feira, 9 de abril de 2008
DEDO
Um dos meus últimos posts falava de querer e poder, de eu não saber o que quero mas querer saber, qualquer coisa assim, estúpida e inconsequente como muitas das outras que aqui despejo. Inútil, como todas. Hoje, e para se ver como estúpidas e inconsequentes são as conclusões que tiramos, sinto que não quero saber o que quero e que essa é a razão de eu querer, por exemplo, escrever. Eu sinto, não sei. Ou será que só sei o que sinto? Se é, eu sinto, portanto sei, que só eu sei o que sinto. E, nesse sentido, minto se disser que sinto que querer é poder. Mas também quero dizer que amanhã quero poder sentir tanto que querer é poder como hoje sinto que poder é não querer. Porquê? Porque mudo. Sem querer ou por querer. Ou por crer. Vá-se lá saber.
FODA-SE
A razão. O juízo. Ela fá-lo. Ele desfá-la. E nunca este carrocel incestuoso movido a sangue, suor e lágrimas deixa de rodar. Mais uma volta, mais uma viagem. Para quê? Para não sair do sítio? Para concluir que uma e o outro são o focinho e a cauda do cão que passa a vida inteira a girar sobre si mesmo? Será um o fim da outra? Será o contrário? E eu, onde estou?
sábado, 5 de abril de 2008
CENAS
Hoje é dia de festa. Não cantam propriamente as minhas almas, mas as dos jogadores, dirigentes e adeptos do FC Porto. Às vezes, nós temos de participar na festa dos outros. O desafio, dizem-nos nessas vezes, é fazer da festa dos outros a nossa festa, mesmo que preferíssemos infestá-la. Afinal, lá em cima seremos todos campeões. Para os crentes, porque lá em cima há planícies sem fim e tudo quanto se ouvia no 'Era uma Vez o Homem' e não há raiva nem ódio nem inveja, apenas amor. Para os não crentes, porque o céu é azul e as núvens são brancas. Para os mesmo nada crentes, porque as núvens pretas com que rebatem o argumento anterior são a expressão celestial do árbitro, ou seja, Deus. E não venha nenhum lampião com os tons vermelho e rosa do céu ao fim da tarde porque isso não é o céu, isso é a luz (e, lá diz a Margarida Rebelo Pinto, não há coincidências) do sol - que, sublinhe-se, cega. Eu, na minha onto(i)lógica ignorância, tenho apenas esperança de estar à altura do desafio. E o conforto íntimo de acreditar que a esperança é mesmo verde.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
FIM
Não me lembro do meu primeiro amor. Não posso sequer garantir que o tenha tido. Provavelmente não, porque, se o tivesse tido, e dizendo toda a gente que não há amor como o primeiro, lembrar-me-ia. Por isso, talvez toda a vida só me tenha amado a mim. Esta é a conclusão fácil. Por outro lado, lembro-me de ter amado quem me deixou, lembro-me aliás de ter amado todas as mulheres que me deixaram no momento em que o fizeram e por algum tempo depois, ou sempre depois, de maneiras e com intensidades diferentes. Por isso, talvez
toda a vida só tenha amado o que não tivesse, ou melhor, o que tivesse deixado de ter. Esta é a conclusão mais ou menos fácil. O mais fácil é chegar a ela, o menos é aceitá-la, porque, se a tomar como verdadeira, ponho-me perante um dilema difícil de resolver, face à primeira conclusão, que é: ou eu nunca me tive a mim ou deixei de me ter nalgum momento. Se pegarmos primeiro nesta segunda parte, contrariando um bocadinho a lógica das operações humanas – e ao dizer pegarmos, em vez de pegar, já estou a admitir que preciso da vossa ajuda para esgravatar isto –, a primeira coisa a fazer é tentar lembrar-me – e aqui, desculpem, terei de ser eu só, partindo do princípio, também ele questionável, como tudo, de que vocês não têm memória da minha vida – do preciso momento em que eu deixei de me ter. Admitamos que foi justamente no momento em que eu tive consciência de que me tinha, o que já de si é o paroxismo do paradoxo, ou, para termos a satisfação de já termos juntos “inventado” um termo, o paradoxismo. Mas se, simplificando, eu me perdi no momento em que me encontrei, então foi, por um lado, e face à segunda conclusão, aí que eu me comecei a amar e, por outro, aí que eu deixei de me amar. Esta é a conclusão mais ou menos difícil. O menos difícil é aceitá-la, o mais é achá-la mais difícil do que a primeira, porque a primeira, talvez por me implicar apenas a mim e ainda não também a vocês, dói mais – e, nesse sentido, é mais difícil de aceitar, o que nos põe já em oposição com o que eu, ou melhor, nós acabámos de concluir. Estamos todos, então, neste labirinto. Não sinto, porém, que esta, fácil ou difícil, seja grande conclusão. Talvez passe a senti-lo quando deixar de a ter. Agora, agora, atravessa-me a ideia de que, ao amar quem me deixou, o que eu amei foi, como acontece geralmente quando admiramos alguém, a capacidade de alguém fazer aquilo que eu não consigo. Neste caso, comigo. Esta é a conclusão difícil. Porque talvez implique que eu só me volte a amar no momento em que deixe de me ter. Por outro lado, neste preciso momento eu chego à conclusão, já atrás implícita mas nunca enunciada desta forma, de que o meu primeiro amor fui eu. E de que, dizendo toda a gente que não há amor como o primeiro, talvez esteja aí a razão de eu nunca me ter deixado. E esta, sendo porventura a verdadeira conclusão, a mais fácil, porque acessível a qualquer atrasado mental, e a mais difícil, porque dura de roer ao espírito mais elevado, não é, ao mesmo tempo, uma conclusão, e sim o seu contrário: um início.
toda a vida só tenha amado o que não tivesse, ou melhor, o que tivesse deixado de ter. Esta é a conclusão mais ou menos fácil. O mais fácil é chegar a ela, o menos é aceitá-la, porque, se a tomar como verdadeira, ponho-me perante um dilema difícil de resolver, face à primeira conclusão, que é: ou eu nunca me tive a mim ou deixei de me ter nalgum momento. Se pegarmos primeiro nesta segunda parte, contrariando um bocadinho a lógica das operações humanas – e ao dizer pegarmos, em vez de pegar, já estou a admitir que preciso da vossa ajuda para esgravatar isto –, a primeira coisa a fazer é tentar lembrar-me – e aqui, desculpem, terei de ser eu só, partindo do princípio, também ele questionável, como tudo, de que vocês não têm memória da minha vida – do preciso momento em que eu deixei de me ter. Admitamos que foi justamente no momento em que eu tive consciência de que me tinha, o que já de si é o paroxismo do paradoxo, ou, para termos a satisfação de já termos juntos “inventado” um termo, o paradoxismo. Mas se, simplificando, eu me perdi no momento em que me encontrei, então foi, por um lado, e face à segunda conclusão, aí que eu me comecei a amar e, por outro, aí que eu deixei de me amar. Esta é a conclusão mais ou menos difícil. O menos difícil é aceitá-la, o mais é achá-la mais difícil do que a primeira, porque a primeira, talvez por me implicar apenas a mim e ainda não também a vocês, dói mais – e, nesse sentido, é mais difícil de aceitar, o que nos põe já em oposição com o que eu, ou melhor, nós acabámos de concluir. Estamos todos, então, neste labirinto. Não sinto, porém, que esta, fácil ou difícil, seja grande conclusão. Talvez passe a senti-lo quando deixar de a ter. Agora, agora, atravessa-me a ideia de que, ao amar quem me deixou, o que eu amei foi, como acontece geralmente quando admiramos alguém, a capacidade de alguém fazer aquilo que eu não consigo. Neste caso, comigo. Esta é a conclusão difícil. Porque talvez implique que eu só me volte a amar no momento em que deixe de me ter. Por outro lado, neste preciso momento eu chego à conclusão, já atrás implícita mas nunca enunciada desta forma, de que o meu primeiro amor fui eu. E de que, dizendo toda a gente que não há amor como o primeiro, talvez esteja aí a razão de eu nunca me ter deixado. E esta, sendo porventura a verdadeira conclusão, a mais fácil, porque acessível a qualquer atrasado mental, e a mais difícil, porque dura de roer ao espírito mais elevado, não é, ao mesmo tempo, uma conclusão, e sim o seu contrário: um início.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
MAIONESE
O dedo abana, mas não sabe o que quer. Ou melhor, sabe que quer paz, mas não se permite tê-la. Abana porque não se sente credor de não abanar. Abana porque abanar é querer e ele não pode deixar de querer; porque querer é poder e a única coisa que ele pode é querer, embora não saiba o que quer, ou o que quer que seja que lhe permita poder. Mas vai saber. Ou acredita nisso. Por isso abana.
DO VAZIO
António era um bife. Mal passado, passava mal. Mas tinha a resistência suficiente para lutar contra os que o queriam passar bem, pois sabia que “uma vez bem passado, bem passado para sempre”. Passava mal no presente, mais precisamente, já que o seu passado fora até bem passado, ou, como todos os passados, bem e mal passado. Em parte, era com isso que ele se passava: se, por um lado, “uma vez bem passado, bem passado para sempre” e, por outro, o seu passado havia sido bem e mal passado, ou seja, em parte, bem passado, porque não estaria ele bem passado no presente? Talvez, sem o ter presente, estivesse. Mas então por que razão passava mal? Era uma problema pesado, difícil de ultrapassar, e por isso António pediu ajuda. Foi ter com um bife que, por haver passado muito e (aparentemente) passar bem sem estar bem passado, talvez o pudesse fazer passar melhor no futuro, passando-lhe uma receita, ou algo assim, que o dispensasse de ser bem passado para deixar de passar mal. Era o melhor presente possível e, à beirinha do Natal, António passava o tempo todo, incluindo todo o tempo passado com o outro bife, a pedi-lo. Porém, passado pouco tempo, e vendo que António o havia passado mal a ansiar pelo momento de o passar a passar bem sem estar bem passado, o outro bife explicou-lhe que esse não era pedido que ele pudesse fazer a não ser a si próprio, pois nem ele, o outro bife, e muito menos o Pai Natal o poderiam satisfazer. Completamente passado, aqui já não interessa se bem se mal, António deixou o outro bife com um cortante “passar bem” e foi para casa pensar que passaria a mais desconsolada consoada da sua mal passada existência. Só, e descompassado com a ideia de que mais vale só que mal acompanhado, jantou um bife bem passado e passou o resto da noite a dormir, passando a linha do Natal sem se aperceber. Ao acordar, olhou para a árvore luzente que, apesar de tudo, havia comprado e percebeu que alguma coisa se tinha passado, pois no lugar do passado estava lá um presente. Entusiasmado, correu a abri-lo. Era uma bifana. Dormia como um anjo por nascer, mas já se constatava que era uma bela bifana, daquelas que fazem qualquer bife, mesmo o mais indefinidamente passado, como António, ultrapassar-se. A incredulidade guiou-o, qual sonâmbulo, até à casa de banho, onde passou água pelos olhos. Foi então que, confrontado com o espelho, viu que não se via. O seu tempo, dizia-lhe a superfície das imagens avessas - e que ali estampava também a do Natal - tinha passado. António deixara de ser um bife para passar a ser nada, como acontece com todos os bifes. E não lhe restava sequer o consolo de, enquanto nada, pensar que quando fora um bife o havia sido mal passado, já que passara à história com essa incerteza. Resignado, decidiu aprender com o passado e viver plenamente a espécie de segundo nascimento que lhe fora concedida. Outrora recém-nado, hoje recém-nada. Nesse preciso momento, a bifana acordou.
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