quinta-feira, 27 de maio de 2010
DESATAR ATÉ DAR NÓS
As palavras são filhas do silêncio, rompem-no como um novo ser rompe a sua mãe, não sem dor, não sem perda. Cada palavra é um desafio novo, um início, um indício de fim, uma ilusão de identidade, um cão de casota que corre até esticar a corda. O silêncio testemunha essa loucura. É palavra informe, irrasurável. É a razão da fé, a mãe sem truque, o nada na manga de tudo.
FORA-DA-LEI
Lido mal com o desânimo quando se agarra a si mesmo, quando se autoidentifica sem mais, propondo-se assim, inevitável, plantado para crescer no mesmo sítio, ignorando a raiz e os frutos, vivendo errado na linha certa, apagado na luz. É um desânimo teimoso, indisposto a abdicar de si, como se de si fosse o contrário. É um desânimo pendente, um fruto maduro que nem cai nem apodrece, que nos mantém à sombra da árvore, até, quem sabe, ficarmos nós desanimados, caindo então para cima, para sermos fruto com ele, fruto dele. Talvez esse desânimo espere isso mesmo, talvez a questão seja de luta, de mais contra menos, talvez a união seja impossível, talvez alguém tenha de ficar na árvore e alguém cá em baixo, talvez seja essa a lei do desejo. A lei do desânimo.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
VIDA
Quando uma bola de futebol vem ter connosco, a melhor maneira de a dominarmos é apaixonarmo-nos por ela, pelo seu movimento, apreciar a forma como rola, o ritmo, os brilhos, o ruidinho que faz no chão, estudá-la com prazer, sem ansiedade de a ter no pé, de a parar, sem medo de que ela nos bata e salte para outro sítio. É admirar a maravilhosa liberdade em que o tempo e o espaço vão conversando, calados, ou se vão movendo, parados. Assim, a bola chega-nos ao pé e cola, encosta-se a ele frame a frame, mas num continuum, num continuum em que tudo muda para que tudo fique na mesma imperfeição perfeita em que estava. Não me espantaria se os pilotos de aviões fossem instruídos a encarar a pista de modo semelhante. E é, igualmente, nesse sentido que interpreto o conselho para ficarmos parados se virmos um tubarão a aproximar-se de nós: não é o parar que nos salva, se fervemos dentro, mas o parar de encanto, de beleza, de amor e gratidão por um momento único na vida, que se dane se único e último, ou não fossem únicos e últimos todos os momentos, ou não fossem único e último a mesma coisa, como último e primeiro, como princípio e fim. Para mim, viver é isso, envelhecer é isso, é apreciar a barbatana do tubarão, a luz reflectida na textura molhada da sua pele, os movimentos enleantes com que rasga a água em direcção a nós, a forma como cresce a mancha imprecisa do seu corpo à medida que se acerca. As cores, os cheiros, a música da morte, sempre lenta, sempre divisível, até àquilo que nunca experimentámos.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
PROPOSTA
Desculpem lá fazer render mais um bocadinho o peixe de ontem, mas o retorno que tive foi tanto e tão bom que não resisto a partilhar convosco uma ideia que se alojou em mim há já algum tempo e desde então vem fervendo no meu espírito com a brandura aconselhada às ideias mais atrevidas. Tenho conhecido, ao longo da vida e, sobretudo, nos últimos tempos, muita gente com valor (claro que isto é sempre um juízo subjectivo), com ideias e propostas novas para uma sociedade que não está bem nem se recomenda, a maioria das quais radicando naquilo que deveria, pensam elas, ser o mais decisivo factor de emprego dos tempos actuais, já para não dizer de todos os tempos: o altruísmo. Muita desta gente, que não dissocia, portanto, o bem próprio do bem comum, está (paradoxalmente ou talvez não, ou claro que não), ela mesma, desempregada. Ora, se entre muita desta gente há gente com talento nas mais variadas áreas, e se vivemos numa época em que essas mais variadas áreas têm sempre algo ver entre si, como que a dizer-nos, a bold, que toda essa gente tem sempre muito a ver entre si, por que não juntá-la, pô-la a debater ideias e, mais ainda, já que facilmente se constatará que a generalidade dessas ideias são comuns, unir as suas mentes e mãos no desenvolvimento prático daquilo que foram calando, reprimindo, protelando, à espera de que o circuito "público", que o mesmo é dizer circuito dos poderes, ou do poder (governantes, políticos, empresários, banqueiros, patrões dos media, respectivos testas de ferro e mangas de alpaca, dirigentes desportivos, etc.), se cansasse da sua exclusividade ou, depois de esgotar as suas ideias e já não ter mais valores sociais para delapidar, lhes desse um tempinho de antena. Muito corre por aí que, hoje em dia, face aos instrumentos tecnológicos, não há quem se possa queixar de falta de auditórios, de palcos, de palanques, de púlpitos e altares, porque isto é uma democracia generalizada e todos, se quiserem, podem fazer-se ouvir. A falácia deste raciocínio está no facto de que desvaloriza, (in)justamente, o sentido de comunidade, a importância fundamental de meios de convergência, como são, por natureza, os meios de comunicação social, ao mesmo tempo que quem o sustenta e defende não abdica das suas posições dominantes e influentes nesses mesmos meios. Por isso, meus amigos, tenho para mim que, com tanto potencial humano que há cá fora (e quando digo potencial humano sinto um arrepio, não deve ser por acaso), podemos nós próprios fazer, neste caso aqui no Porto, um jornal, um jornal a sério, um jornal das pessoas, das vozes esquecidas, das ideias silenciadas. Pela rua, pela cidade, pelo País. Por nós. Posso já sugerir um nome: Olho da Rua. E termino apelando a jornalistas, gráficos, gestores, médicos, advogados, picheleiros, arquitectos, trolhas, prostitutos, domésticos, estofadores, professores e demais profissionais cansados de fazer aquilo de que não gostam e ansiosos por poder participar em algo que contribua para uma sociedade mais justa e equilibrada: dêem-se a conhecer, proponham-se. Criemos um espaço funcional onde nos possamos encontrar e contar não armas mas argumentos, para ver o que está ao nosso alcance construir, na certeza de que andará sempre entre o nada e o tudo.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
O OLHO DA RUA
Tenho uma loja na Baixa do Porto, uma loja de mobiliário intervencionado. Chama-se Meioconto. Abri-a no fim do passado Verão, pouco depois de ter sido despedido de um jornal em que trabalhei quase vinte anos. Durante esse tempo, confesso, não me preocupei significativamente com o comércio: queria era informar as pessoas, contar-lhes coisas que não soubessem, intervir de forma construtiva na sociedade, contribuir à minha maneira e na escala que me estivesse destinada para democratizar os conhecimentos e os instrumentos individuais e colectivos de análise e de participação cívica, ajudar a cimentar os pilares em que quase todos, no discurso, concordamos que uma sociedade desenvolvida se sustenta. Não me foi possível. Admito que me tenha faltado inteligência, sensibilidade, empenho, capacidade, talento e paciência para contornar os obstáculos com que diariamente deparava na procura de tais propósitos, mas sei bem que, mesmo "viagrando" todas essas qualidades e mais algumas, jamais estaria ao meu alcance perturbar o normal funcionamento da máquina, cada vez mais exclusivamente virada para o comércio. Dentro de mim foi crescendo uma guerra civil entre o homem e o jornalista, que ou redundava numa doença isquémica ou no que acabou por acontecer: o despedimento. Apercebi-me cedo de que era um corpo estranho naquele organismo, mas a eterna crise - a ideia de que a segurança no emprego se sobrepõe a quaisquer veleidades de realização profissional, socialmente encaradas como caprichos de gente que não sabe a sorte que tem, já estava bem enraizada na consciência colectiva ao tempo da minha entrada no mercado de trabalho - manteve-me ali, atado a todas as desilusões relativas ao jornalismo e a mim próprio, ou ao que fiz de mim ou, nos momentos mais autocomplacentes, àquilo em que o jornalismo me tornou: um cobarde. Comi a minha cobardia durante anos a fio, diluindo-a na cobardia dos outros, os meus colegas, concordando nas desculpas que fabricávamos juntos como notícias internas, de sinal oposto às externas na sua intenção apaziguadora, benévola. Conformávamo-nos com a legitimidade de assustar os outros para nos acalmarmos a nós, transformando-nos assim num mero degrau da escadaria repugnante dos media, um degrau de baixo mas um degrau, tão sujo como os outros. Ser ou trabalhar, eis a questão que ganhava nitidez a cada novo dia, na mesma proporção em que a ideia de novo dia perdia nitidez. O ser levava-nos a pensar em reportagens pertinentes, a querer conhecer a sociedade, a fazer "reset" para descobrir sem preconceitos ou intuitos prévios, a contrabalançar as corrupções, as injustiças, o sangue, a tragédia e o horror com as histórias de sucesso, os fenómenos heróicos, os acontecimentos positivos, o fazer das fraquezas forças, o lado encantador da sociedade; o trabalhar levava-nos a escavar o crime, a servir interesses e visões particulares, a reproduzir ou antecipar o que os outros jornais publicavam, a reprimir a nossa vontade de pensar livremente, a discutir com gente despótica que dependia da hieraquia como um peixe depende da água, a perder de vista qualquer horizonte social, a engolir nenúfares porque os sapos já tinham ido todos e a participar numa matança galopante de valores matriciais desse conceito rupestre que é hoje a humanidade. De tempos a tempos ressurgiam-me perguntas antigas, como velas que sopramos e se apagam mas teimam em voltar a acender-se. Do tipo: "Mas se o mundo é tão grande e nele cabem tantas histórias, porque é que as notícias dos jornais, das rádios e das televisões são todas iguais?". Até me envergonhava com a ingenuidade. Hoje orgulho-me por tê-la conservado, por não ter deixado apagar definitivamente essa vela. Se escrevo este texto é porque, depois de um ano de desintoxicação noticiosa, voltei a sentir, dentro de mim, a vela acesa. Corre-me a escrita como sangue em veias desobstruídas de inibidores de paixão. Já não é água ferrugenta, amarelecida e conspurcada, o que liberto da mente e da alma pela torneira dos meus dedos. É com a ingenuidade que tinha quando comecei a escrever que, na minha loja de mobiliário intervencionado, pego em coisas antigas e as transformo em peças novas, únicas, comunicantes e acessíveis. É com essa ingenuidade que continuo a pensar em comércio como uma consequência natural da qualidade do que se produz. Felizmente, já não penso no "leitor", essa entidade abstracta estupidificada até ao limite do irrazoável; agora penso nas pessoas, naqueles que, como eu, gostam de ver respostas para as suas perguntas, gostam de ver respeitada a sua particularidade e integrada a sua voz distinta no coro harmónico que se pretende símbolo e substância de uma sociedade sã. Dou nova vida a valores esquecidos, desprezados pela lei moderna da frieza. Dou via verde aos afectos. Aproximo-os dos objectos, esperando que neles se veja o tanto que podemos fazer por nós. Desde que cheguei à Baixa do Porto, apercebi-me de que muita gente, antes de mim, já havia reciclado as suas vidas, arriscando os seus subsídios de desemprego em empregos por si criados, empregos virados para fora, para os outros, para a cidade e, em particular, para uma zona da cidade que, se não fosse essa gente, estaria em irremediável declínio. Apercebi-me de que essa gente, maioritariamente jovem, faz o que faz não só por amor à vida, mas muito por amor à cidade. Sem ajudas, sem incentivos, sem reconhecimento. Todos lutamos aqui pela nossa cultura, pela nossa identidade, pelo nosso Porto. O Porto das pessoas. Todos estamos fartos de lutar para engordar quem se esqueceu desse mesmo Porto e, por extensão, deste Portugal sem abrigo. Viemos para o olho da rua para olhar pela rua. Não matamos, não insultamos, não roubamos, não ganhamos concursos, apenas nos empenhamos em ser novas soluções para um velho problema. E por isso não estranhamos não ser notícia.
terça-feira, 18 de maio de 2010
SOL LÁ
Nessa tarde a rua não tinha gente, e José procurava reflectir sobre a angústia que o tomava, no porquê de sentir o peito preso quando a calma imperava lá fora e se ouvia o chilrear dos pardais por entre notas de piano que saíam com delicadeza e meiguice das mãos de alguém que só poderia ser uma mulher, sem dúvida jovem, provavelmente bonita e quase de certeza tímida, atravessando o tecido fino dos cortinados de uma janela semiaberta da vizinhança, movidos pela suavidade da brisa e saboreando a luz e o tempero de tudo menos do peito de José, que assim percebeu porque é que nessa tarde a rua não tinha gente.
CRUZ
É curioso que haja quem escreva para sobreviver, na medida em que a escrita é uma forma de subvida. Escrevemos, por um lado, para nos espelharmos, admitindo assim que há uma espécie de relação horizontal, olhos nos olhos, entre o escritor e a escrita. Mas rapidamente verificamos que a relação vertical também existe, na medida em que escrever é ver o mais baixo a que nos deixamos ir. E o espelho também aí nos devolve a imagem oposta: quanto mais baixo nos permitirmos ir, mais alto chegamos.
Subscrever:
Mensagens (Atom)