segunda-feira, 14 de junho de 2010

PONTO INFINAL

Fico a ver a minha respiração bater as asas, fico a vê-la penetrar no infinito e deleitar-se com o voo sem rumo, sem ordem outra que o prazer de se sentir, de se diluir no espaço, de se apagar. Eu sou a minha respiração tanto mais quanto ela vai para longe, e se perde, e eu morro sem morrer. Aí sou o silêncio, o nada cósmico, a ausência - e, nessa milagrosa consciência, vejo-me fonte de vida, perpétuo nascimento, eternidade.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

AO MEU AMOR

O meu amor foi para longe, descobrir-se, experimentar-se, viajar sozinho. Foi a medo, ou meio a medo, por não saber aonde vai dar esse caminho. Eu disse-lhe para ir em paz, para não ter medo, para ser capaz de confiar no seu próprio segredo. O seguro morreu de velho e, mesmo no escuro, que melhor ao amor faz do que olhar-se ao espelho? É um mergulho suave, um doce grito, como se fosse um voo de ave no infinito. Quando for hora de voltar, talvez o meu amor saiba melhor o que é amar.

terça-feira, 8 de junho de 2010

FREIOS, PORCOS E MAUS

Devia haver um Dia Mundial do Desenfreado (pela piada fonética, até merecia ser feriado), em que todos despejássemos indiscriminadamente o que trazemos dentro, o lixo orgânico e anímico no mesmo saco, no saco do Dia. Eu, cá por mim, vou fazer de conta que é hoje e, daqui para a frente, o que este texto contiver já terá de ser lido à luz dessa ausência de critério. Normalmente, o que me acontece é pegar numa ideia mínima e desenrolá-la, como se faz à massa de rissóis. Só que depois não vou lá com os copos, aliás, se lá fosse com os copos não escreveria nada de jeito, ou às tantas até era assim que arranjava maneira de o fazer, pois quem sabe se as minhas coisas são ou não de jeito é quem as lê, incluindo eu quando assumo esse papel. Nesta última frase, confesso já, quebrei as regras, porque onde escrevi “assumo esse papel” pensei antes escrever “o faço”, mas como tinha escrito, um pouco acima, “arranjava maneira de o fazer”, achei melhor não repetir o verbo. Mas continuemos: não vou lá com os copos, em vez disso junto a massa toda e chapo-a no blogue, menos bruta, concerteza, mais espalmada, mas para vocês fazerem dela o que quiserem. Porque é que me sai das mãos, ou do rolo, menos bruta do que a ele chegou, eis a questão. Em todo o caso, é uma questão que hoje, por ser, para mim, Dia Mundial do Desenfreado, não poderei explorar, ou melhor, poder explorar até posso, mas não poderei esclarecer, porque não garanto coerência ou consistência na abordagem, ou então não seria Dia Mundial do Desenfreado e sim Dia do Freio, a que levanto desde já o dedo do meio, porque esse é todos os dias. Não gosto, no entanto, e aqui o assumo, de reconhecer que corrijo o que escrevo, pois nisso vejo a vontade de vos agradar, de agradar a quem não conheço, de agradar a nada, de degradar. De degradar, sim, se eu não sei o que é bom para vocês e, pelos vistos, também não sei o que é bom para mim e, mesmo assim, corrijo o que escrevo, correndo o risco de corrigir mal, aliás, quase não correndo o risco de corrigir bem, porque de certo modo estou a tapar os olhos com uma peneira, estou a peneirar esse ser cheio de lixo que reclama, hoje, porque decidiu tomar para si um imaginário Dia Mundial do Desenfreado, despejá-lo, ainda por cima em cima de vocês, que não só não têm culpa nenhuma como ainda se predispõem generosamente a ler coisas que eu escrevo para vos agradar sem sequer me dar ao trabalho prévio de vos conhecer e assim saber o que vos agrada. Vou-vos dar um exemplo, e para vo-lo dar terei de me valer de um texto pré-escrito, que contudo não prescrevo, pois surgiu sob a lógica criteriosa da correcção que hoje renego. Era um texto sobre as árvores, fi-lo ontem, e rezava assim: “Há segredos que são para ficar entre mim e as coisas. Verdades ou ilusões, não sei, mas são intimidades sensíveis, diálogos fundos, delicadezas livres que, no seu estado virginal, não resistem à virulência da palavra. São eles quem mo diz, com recém-nascida sensatez, quando o ego me imbui de uma febre de partilha que só pode traduzir, nunca revelar. É como se um feto me pedisse para suster o anúncio da sua vinda ao mundo, para lhe dar mais tempo, para o deixar crescer. Hoje, por exemplo, procurei escrever sobre a minha relação com as árvores, sobre o sereno respeito que me inspiram todas, mesmo as mais desgrenhadas, mesmo as mais secas, mesmo as deitadas abaixo. Há uma dignidade nas árvores que não mora nas coisas do mundo, que não se corta, que não se mata, que perdura como segredo eterno, integridade pura, e que se nos revela apenas nesse esplendor impalpável, chamariz de todos os raios, de todos os ventos, de toda a água, de toda a terra. As árvores são antenas de vida com ossos de morte, faróis de abrangência. O seu silêncio, testemunhando as várias vestes do tempo, é a escola de canto dos pássaros”. Aqui chegado, tomei consciência do que tinha escrito, da cadência pegajosa do que se me prefigurou como ribeiro transparente e que, já a meio da tarefa, deixou de o ser, ou não houvesse eu escrito “Hoje, por exemplo, procurei escrever sobre…”, evidência da morte de uma crónica anunciada, e que devia ter ficado por aí, pelo anúncio, abrenúncio, ou então isto, encaixada, como lixo reciclado, numa prosa toda ela lixeira, toda ela aterro, a prosa em que hoje aterro, a pista inerentemente aérea do Dia Mundial do Desenfreado. De repente, no decurso de tão emproado tributo ao arvoredo, imaginei-me a fazer uma sopa de legumes e a deitar para lá um caldo knorr, que era, bem vistas as coisas, o que eu estava a fazer à minha escrita, pois, quando a provei, e não aprovei, soube-me a Teixeira de Pascoaes, a um Teixeira de Pascoaes em cubo, como as cebolas do Pingo Doce, o que para mim teve, claro, um travo amargo, não porque não goste do escritor, bem pelo contrário, acho-o sublime e considero até a sua obra emblemática, Marânus, o melhor poema que li na vida, mas precisamente por isso, por achar que ele, sobretudo ele, não merece ser enlatado, não merece ser empacotado, não merece ser congelado e vendido assim, aos bocados, como as tais rodas que os copos desenham na massa de rissóis e que eu próprio para mim rejeito, por sentir que a minha escrita, infinitamente mais presa e ferrugenta do que a dele, sabe melhor em bloco, ou em blogue, ou seja lá como for, desde que inteira, desde que corrida, desde que fluida, desde que viva, desde que livre, desde que desenfreada. Dito isto, fico contente por não ter mais gente para atender no guichet da garganta, que é como quem diz mais disparates para escrever, que é como quem diz ainda mais lixo para despejar. Será? Claro que não. O lixo, em mim, não tem fim. Mas este texto, felizmente para todos, tem. Como vêem, há fins que justificam os freios.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

SER SISTEMA OU SER TEMA DO SIS

Para mim, uma pessoa honesta é uma pessoa que procura a honestidade, que está preparada para viver sem objectivos, ou melhor, que está preparada para viver com objectivos objectivamente utópicos, impalpáveis, imateriais. Essa pessoa sabe que os fins preexistem nos meios e, por isso, tende a dedicar-se a cada momento como se ele fosse o primeiro e o último, tende a não marcar encontros, tende a não desejar outra coisa que o não desejar. Essa pessoa liberta, desprende, aprende. Vem isto a propósito da minha experiência de pai, de pai recente, e das dificuldades com que me tenho debatido para afugentar doutrinas, dogmas e conceitos sociais sobre o exercício da paternidade. São moscas, ou piores que moscas, quando atacam a sã convivência entre mim e a minha filha, quando interferem na forma como eu encaro as suas birras, as suas brincadeiras, as suas recusas, os seus mimos, as suas exigências, quando me incitam a representar o papel do mais forte e a obrigá-la a fazer o que quero, quando me levam, portanto, a mentir ao mais fundo de mim, como quem fecha os olhos a si próprio, como quem fecha os olhos à honestidade. Isto acontece, claro, porque mesmo uma pessoa honesta, ou principalmente uma pessoa honesta, tem dúvidas, e, quando as potenciais consequências da dúvida se projectam sobre quem a tem, não é difícil correr o risco, já que afinal a vida de uma pessoa que procura a honestidade é feita de erros e acertos, de passos seguros e passos em falso, mas quando essa dúvida se apresenta como um fio eléctrico que é preciso cortar, de entre dois, para desactivar uma bomba, sendo que a voz íntima de quem escolhe lhe diz para contrariar, nessa escolha, a voz pública de todos os manuais, e os efeitos de um eventual engano recaem sobre outro ser, ainda por cima, no caso a que me reporto, um ser que não deixa de ser a razão de ser do ser que escolhe, é preciso ter coragem para manter a honestidade, não a honestidade de se reconhecer que não se teve coragem, embora também essa, me parece, seja compreensível, ou não condenável, face a todos os condicionalismos que, qual guilhotina, abrem um impecável sorriso sádico por cima da nuca do candidato a réu, mas a honestidade que é honesta para com ela mesma, como o amor de quem ama, acima de tudo, o amor. Eu já muitas vezes tive de reconhecer que me faltou a coragem e, para ser honesto, continuo a ter. Sinto, aliás, que assim será até ao meu último sopro. Mas sei, também, que cada vez mais confio no que não se vê, que cada vez mais percebo a inutilidade de nos agarrarmos às coisas sólidas, que cada vez mais prescindo do tronco de madeira pela corrente do rio, e que, por isso, cada vez menos quero obrigar, moldar, doutrinar. Tenho para mim que o processo educativo é como uma ampulheta. Quando a criança nasce, os pais viram-na (não a ela, isso é a parteira) ao contrário, deixando a partir daí a areia correr, ou seja, a sua responsabilidade esvaziar-se, transferir-se grão a grão para o novo ser, que assim se formará progressivamente mais livre. Não se confunda isto com lavar as mãos do trabalho mais encantador que aos animais foi confiado. O que eu sinto é que, para se saber o que um recém-nascido pede, um pai tem de, sobretudo, estar disponível para ouvir, ver, apalpar, provar, cheirar, que o mesmo é dizer sentir, libertar os sentidos, no fundo aprender com os próprios sentidos como lidar com o seu bebé, olhar para cada um deles como um bebé e senti-lo, sentir-se, sentir os sentidos, pois também eles um dia foram bebés e, estou convencido, na maior parte dos constituintes desta sociedade humana foram bebés logo condicionados, logo dirigidos, logo censurados, logo castigados, logo obrigados, logo atrofiados, logo proibidos. E todos sabemos o que é um sentido proibido. É um caminho que se perde na estrada da vida, de uma vida que não nos pertence por direito, nem sequer a nossa, quanto mais a de outro. É um beco sem entrada, é um nado-morto, é um destino destinado a não ser, é um contra-senso. Estou em crer que, com menos sentidos proibidos e, já agora, por inerência, com menos sentidos obrigatórios, com mais liberdade de trânsito, com menos medo de existir e circular, de brincar, experimentar, fazer e acontecer, a vida em sociedade seria mais plena, mais produtiva, mais surpreendente, mais viva, teria mais possibilidades de se ver ao espelho, de se conhecer a si mesma e, nesse sentido, que é tudo menos proibido, de procurar a honestidade. De ser honesta. Se acham que isto é advogar a anarquia, para mim é confiar na vida, na vida das pessoas e de todos os seres. É confiar nos valores, no amor, na paz, na harmonia, na gratidão. É confiar na verdade, no belo, no bem. E uma coisa é certa: só confia quem tenta. Isto não é, pois, um atentado à democracia, é bem o contrário, é um tentado à democracia, é uma declaração de disponibilidade para testar o sagrado sistema, para tentar ir além dele, para desbloquear o curso do rio, tirar o tronco de madeira, deixar fluir o sangue nas veias do mundo e não para fora das veias do mundo. A escolha é de cada um. Ao menos nisso, sejamos honestos.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

AS PUTAS

Sinto dever para com quem não tem os meus direitos. Passo, todos os dias, por muita gente que vive de si, apenas, sem qualquer enquadramento externo que não o universo, sem outro tecto que o horizonte vertical, reconfortante, ainda assim, na sua aparência finita, sem outro chuveiro que as nuvens, a cuja vontade própria essa gente obedece, ou resiste, consoante as ordens da sobrevivência, sem outra mesa que a caridade ou o lixo, tantas vezes a mesma coisa, o mesmo despejo, que importa se de culpa ou de sobras materiais, sem outro prazer pessoal que o sentirem-se inteiros, já quase irredutíveis, com cada vez menos a perder, sem outro prazer social que a liberdade, quando ela existe, de fazer amigos entre os iguais, de ser iguais aos iguais, aos que também não têm direitos. É difícil admitir que eles, estes seres humanos, não são os restos do mundo, são o mundo inteiro, contas redondas. As migalhas que escapam são o pó da bola, parada, resignada a girar apenas, como um cão que persegue o seu rabo sem nunca apanhar a pulga, mas ainda assim contente por ver as migalhas, o pó, mudar de sítio ao sabor do seu movimento. Simples panaceia. É como diz o provérbio: enquanto o pau [o pó] vai e vem, descansam as costas. E no mundo, como todos sabemos, não há complacência para a tortura das costas, humanas e geográficas. Das costas e dos corpos, da terra inteira, dos continentes, que vão sofrendo e respirando mais e menos consoante as levas de pó, os ventos da ganância e os mares do egoísmo, que se vão habituando a desejar o mal dos outros por já só conceberem o seu bem à escala dele, tão funda vai a cegueira neste olho suspenso do universo, neste olho que, apesar de tudo, ainda gira, ainda espera que o olhemos, não aceita que sejamos dois com ele, ele o planeta e nós o anel, dois olhos da mesma cara, duas órbitas que nem do estrabismo nem da ciência se podem valer, dois poemas impedidos pelo visível, pelo palpável, de pousarem um no outro, reconhecendo cada um ao seu espelho que o amor é tudo aquilo de que a carne os separa. A carne, a razão concreta, a mãe da luta, a filha da puta. É por ela que protagonizamos este espectáculo sangrento da história humana, é por ela que queremos sempre mais guerras, mais vitórias de menos vencedores, menos deveres para quem tem mais direitos. É pelo dinheiro que gastamos o tempo, é pelo fruto que cortamos a árvore, é pela imagem que esvaziamos a substância, é pelo poder que proibimos, é pelo luxo que escondemos o lixo, é para seguir em frente que não olhamos para trás, é pela filha da puta que matamos a mãe. É por nós que não nos queremos. Nós, os filhos da puta. O que é, afinal, uma puta, uma puta homologada, se não alguém que vende o seu corpo para ganhar a vida, que o faz às claras, sem dissimular, sem enganar, que dá o que tem e a muito mais é obrigada por uma sociedade de fundo falso, ingrata, sem raiz, que se serve a todos os níveis desse exemplo de coragem, que se limpa diariamente a essa fralda, que desmente a autenticidade desse seu reflexo e faz dele sombra, sombra perseguida? As putas são, na verdade, oráculos, e não falo do que têm entre as pernas, não, são espelhos da loucura humana, da esquizofrenia da espécie, nessa demonstração inequívoca que proporcionam sobre o valor da carne: se uma pessoa vende o cérebro ou a alma, e poucas são as que hoje não o fazem ou tentam fazer, é um homem de sociedade, um exemplo de responsabilidade social, um cidadão do futuro, um indivíduo credor de todo o respeito; já se vende o corpo, e não tem a sorte de ser exclusiva de um desses portadores de virtude, é uma forma de vida moralmente repulsiva, uma doença contagiosa, uma vergonha para a sociedade, um coração pulsante que não merece estatuto, reconhecimento de dignidade, igualdade de direitos, amor, compaixão, gratidão, nada. Nada que não sejam uns trocos, pénis erectos a entrar-lhes pelos buracos adentro, suores porcos a untar-lhes a pele, ruídos animais a comer-lhes os tímpanos, como se já não bastasse o resto, e quem sabe umas chapadas, uns insultos e todos os maus-tratos que, cobardemente, ficaram por dar aos devidos destinatários. Eu nunca fui às putas, ou melhor, nunca fui com uma puta, mas ponho o meu nome em qualquer lista que defenda a sua profissionalização, que lute por lhes ser dada assistência social, por lhes serem concedidos cuidados médicos, por lhes ser reconhecida toda a coragem e a dignidade que se atribui sem qualquer engulho, e só para dar um exemplo, aos mineiros. As putas são mineiros e minas, escavam o seu lugar ao sol por entre a escuridão do preconceito e da hipocrisia e são, claro, também elas perfuradas, alarvemente perfuradas, quer no seu corpo quer na sua alma. São paredes vivas, histórias ocultas como tesouros escondidos, enterrados, literalmente enterrados, ou emparedados, árvores humanas, anjos da noite, mulheres, mães. E nós, queiramos ou não, somos filhos delas, filhos de todo o tipo de prostituição acumulada que fomos varrendo para debaixo do tapete, desde o princípio dos tempos. Se isto custa a engolir, imaginem o que elas passam.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A CRISE À MEDIA LUZ

Não é de hoje que, para mim, a decifração da mensagem mediática devia constar dos programas do ensino básico. Todos os dias vejo pessoas a viver no passado e no futuro, atormentadas que estão pelo agoiro jornalístico, agora tão comprazido nesta possibilidade de chupar a crise até ao tutano, como se esta fosse não a madrasta que tanto lamentam, mas a costeleta mais apetitosa que já alguém lhes pôs na mesa. Desculpem os que acharem este discurso uma irresponsabilidade, mas estou plenamente convicto de que a melhor maneira de responder a todas as crises, e também de as evitar, é estar presente em cada momento, é aquilo a que comummente chamamos ter sangue frio. Só assim um piloto de avião pode pensar em aproveitar a percentagem mínima de hipóteses de salvação que se lhe apresentam se os motores do aparelho deixarem de funcionar. Se pensarmos nos media, e em quem neles faz ouvir a sua voz, como pilotos de um avião que se chama Portugal, a atitude generalizada corresponde a abrir a cortina que dá para os lugares dos passageiros e gritar: “Gente, vamos cair!”. Muito se fala, e já fede que chegue, das melhores medidas a adoptar para uma pessoa se proteger da crise. Pois eu avanço já uma: desligar a televisão. Se não for suficiente, como se prevê que não seja, outra há: deixar de ler jornais e de ouvir serviços noticiosos na rádio. Quem o fizer vai ver que rapidamente se encontrará num estado bastante mais calmo e propício a juízos acertados. Antes desta crise, e estou longe de ser o primeiro a assinalá-lo, de muitos outros problemas se inventaram crises. A saúde pública, então, tem sido terreno fértil para extrapolações criminosas a reboque de interesses privados, da BSE ao Antrax, da Gripe das Aves ao H1N1, numa sucessão que será retomada assim que a crise termine, porque, justiça seja feita, se há algo que, no seu afã malévolo, tem mostrado compreensão pelos momentos de drama social são os vírus e as bactérias, muito bem comportadinhos na fila, sem protestar, à espera da sua vez para atacar o mundo quando este não tenha outros problemas mais importantes com que se debater. O mundo, ou melhor, o mundo visível, claro está, já que em certos lugares do mundo, em lugares tão imensos quanto esquecidos, talvez por se levar demasiado à letra o facto de terem paisagens a perder de vista, os vírus e as bactérias e as crises e os crimes se juntam todos, em qualquer altura, sempre, como as próprias vítimas deles, à procura de alimento. A essas vítimas, porém, é que as notícias não dão voz. A essas e às de cá, de Portugal, da Europa, que também não faltam. São os Ricardos Salgados deste planeta, cujas empresas não só apresentam lucros milionários como aumentos milionários desses mesmos lucros, que vêm dizer a quem se unha e desunha para aguentar o seu barco que estamos “no meio de uma tempestade”, que é preciso fazer sacrifícios. Os media, como qualquer produto de consumo, alimentam-se do medo. Aliás, e desculpem lá este parêntesis etimológico, coisa que já vem sendo habitual nos meus textos, as duas palavras terão por certo algo em comum, medo e medium, medo e media, o que, noutro contexto, até me faria armar em reciclador de Mcluhan e afirmar qualquer coisa como “O medo é a mensagem”. Porque é, cada vez mais. Veja-se, por exemplo, a atitude felina de Fátima Campos Ferreira, no programa televisivo do regime, que é mais de bate do que debate, a quebrar todo e qualquer raciocínio dos seus já criteriosamente escolhidos intervenientes que não contribua para adensar o clima de pânico que se vive no País. A eleição dos próprios temas, o próprio nome do programa: Prós e Contras. Então não estamos todos em crise? Então e para combater a crise não é melhor que nos juntemos todos? Então e só há uma coisa e o seu avesso? Então e o equilíbrio, o meio termo, a convergência? Então Aristóteles, se vivesse hoje, não teria assento no Prós e Contras? E porquê, em cenário de crise, fazer prevalecer o alegado, mas muito discutível, interesse empresarial da televisão pública, cortando e colando discursos ao bel-prazer da testa franzida, da pose consternada e da voz grave de Fátima Campos Ferreira, quando todos beneficiaríamos de uma concessão circunstancial, automaticamente justificada, que permitisse aos convidados, dentro daquilo que é o senso comum do bom-senso, desenvolver os seus raciocínios sem pressa ou pressão, com a lucidez e a clareza que só (e voltamos à questão inicial) a paz de espírito proporciona? Há muitas perguntas para devolver aos media, mas infelizmente eles são o paradigma do provérbio “Em casa de ferreiro, espeto de pau”: entram cada vez mais despudoradamente por todas as casas, por todas as crises, por todas as intimidades, e não deixam ninguém entrar nos seus domínios sem uma escalpelização prévia e uma filtragem apertadíssima dos motivos da visita. Com tanta febre documentarista que hoje se testemunha, com tantos Michael Moores (por quem eu não tenho, devo dizer, particular simpatia, já que o entrevejo como um clown do sistema, o pain in the ass tão útil ao establishment, a excepção inevitável para confirmar a regra), já alguém se perguntou porque é que nenhum realizador português se interessa por fazer um documentário sobre a lógica de funcionamento dos media, a vida dos jornalistas, as suas condições de trabalho, as pressões a que são sujeitos, a perspectiva que os patrões têm do jornalismo, a forma como são abordadas as histórias, a facilidade com que se espreme o sangue e se deita fora o corpo? Pois eu digo: primeiro, por ignorância; segundo, por medo; terceiro, por impossibilidade prática de um trabalho independente, verdadeiro, como dizer…, jornalístico. Mas seria da mais elementar importância. Talvez as pessoas pudessem perceber um bocadinho melhor que, nisto das crises, como em muitos dos fenómenos justificativos dos sacrifícios sociais, e desculpando-me desde já pelo travo desagradável que o final deste texto possa deixar no leitor, se aplica com justeza outro provérbio: “Quem se queixa é quem larga a ameixa”.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

DOIS ESTRANHOS, TANTOS DESTINOS

Quando entro num táxi, sinto sempre algum desconforto, um certo receio de que o meu pedido não vá satisfazer o taxista, ou por a distância ser curta ou por a distância ser longa, não sei, ou por eu ter uma nota grande para um custo pequeno, ou então pela hipótese de não lhe apetecer, naquele momento, sair da postura, por estar com sono, por estar cansado, por ter vontade de soltar a bexiga ou, pior, o intestino (digo pior porque se, até hoje, ainda não apanhei nenhum taxista que urinasse no carro, já tive a experiência de vários que, educadamente, comprimiram os gases até ao limite das suas possibilidades e deixaram que eu saísse antes deles, bem como de outros que os largaram placidamente com um desplante esfíngico, deixando-os tomar conta do habitáculo e de mim, de todo eu e, claro, virando do avesso a natureza altruísta do meu desconforto inicial), ou pela eventualidade sumamente azarada de todos esses condicionalismos convergirem naquele módulo andante, que mais valia ficar parado, se assim fosse. Quando me sento, já depois de perguntar se posso e, confesso, nem sempre esperando pela resposta (essa é uma das minhas falhas, tenho talvez de dar um segundo mais, de não fazer daquilo mera circunstância, mera formalidade, devo se calhar aproveitar o momento para tomar o pulso à relação entre o veículo e o condutor, e entre ambos e eu próprio, embora não me esteja a ver a recuar, no caso de a conjuntura não me cheirar, literalmente ou não, bem, por isso pouco interessará o cuidado), fico com os sentidos alerta, atento ao mais pequeno sinal que me permita aferir do estado de espírito do homem, ou da mulher, isto hoje nunca se sabe, que me aceita como passageiro. Depois, indico o destino que pretendo e predisponho-me ao que vem, se o silêncio mais comum, se o “sim senhor” também frequente, se o “t…”, de enfado, que tanto me indigna como me inspira compaixão, dependendo de para onde estou virado, ou se o, mais raro, é certo, mas sempre possível, “f’dasss” , para o qual não há, ou eu não encontro, outra resposta que não engolir em seco e olhar lá para fora. Já no trânsito, opto geralmente por permanecer calado; gosto de que a primeira nota seja dada pelo taxista, uma vez que a última, aconteça o que acontecer, sai sempre do meu bolso. Se ele é comunicativo, se fala das obras na cidade, dos engarrafamentos, do tempo, de mulheres (partindo do princípio de que, se ele for ela, ou seja, se for uma condutora, não me vai falar de homens, primeiro porque não está no código de conduta, depois porque não é costume nas mulheres que conversam com homens desconhecidos e, finalmente, porque o assunto poderia melindrar o passageiro, fazê-lo sentir-se ofendido, tomado por algo que repudiasse ou o perturbasse, nunca se sabe), das asneiras dos políticos, seja do que for, eu dou troco, mais ou menos consoante a minha disponibilidade mental, o meu estado físico (na maior parte dessas vezes débil, ou então não apanharia um táxi, até porque não sou uma pessoa muito acossada pelo tempo, pelo relógio, e gosto imenso de andar a pé, posso calcorrear a cidade inteira e mesmo um ou outro concelho limítrofe, se disso me sentir capaz) e o interesse da conversa, claro. Se, pelo contrário, o motorista é calado, negócio fechado, ninguém abre a boca e tudo corre sobre rodas. Há, no entanto, um outro tipo de taxista, um híbrido, que me deixa sem saber o que fazer: é aquele que, durante a viagem, não nos dirige uma palavra, mas passa a vida a insultar quer os transeuntes quer, sobretudo, os outros condutores, normalmente de janela fechada - ou, no caso de estar aberta, com o carro em andamento. “Ó filha da puta!”, “Vai pó caralho, ó paneleiro!” ou “Não vês o sinal, ó boi?!” são alguns dos inesgotáveis diamantes que atiram boca fora, e se, por regra, a sua raiva é auto-suficiente, não necessitando da nossa anuência, há casos, dentro desta modalidade específica de taxista, em que as bombas têm efeitos colaterais, do tipo “Você já viu isto?!” , o que, no entanto, embora aparentemente nos intime a tomar parte, é também, tal como a pergunta que inicia quer este texto quer a minha entrada nos táxis, apenas uma formalidade, um comprovativo de partilha, um carimbo no silêncio, como que eliminando a possibilidade de aquele homem, apesar de se dirigir para um sítio a pedido de outrém, não ter reparado na nossa presença ali. Assim que o veículo chega ao destino, cuido de me apressar na busca de dinheiro certo, ou o mais certo possível, com uns pozinhos a mais para qualquer eventualidade, e de me despedir cordialmente, tanto nos casos de incomunicabilidade como nos de incontinência comunicativa, já que uns e outros me confrangem, nem sei quais deles mais e menos. No meio, como quase sempre, está a virtude, e quando ela se afirma, que por regra é quando a viagem física acaba antes da dialéctica, o que acontece de longe a longe, fico por mais uns minutos a trocar ideias já não com o motorista, até porque, entretanto, ele teve o cuidado de desligar o motor, mas com o amigo, o parceiro de luta. Essa conversa, ainda que breve reconhecimento de irmandade, é também ela formal, esgota-se na circunstância, como as outras, ou não estivesse o carro longe de nós em poucos segundos, vidas separadas para sempre, quem sabe, num abrir e fechar de porta. Mas tem o condão de me fazer sair bem de um sítio onde entro sempre com desconforto. De mudar o que sinto. E isso define-se numa palavra: viajar. Uma palavra, como um volante, na mão dos taxistas.