sexta-feira, 21 de maio de 2010

PROPOSTA

Desculpem lá fazer render mais um bocadinho o peixe de ontem, mas o retorno que tive foi tanto e tão bom que não resisto a partilhar convosco uma ideia que se alojou em mim há já algum tempo e desde então vem fervendo no meu espírito com a brandura aconselhada às ideias mais atrevidas. Tenho conhecido, ao longo da vida e, sobretudo, nos últimos tempos, muita gente com valor (claro que isto é sempre um juízo subjectivo), com ideias e propostas novas para uma sociedade que não está bem nem se recomenda, a maioria das quais radicando naquilo que deveria, pensam elas, ser o mais decisivo factor de emprego dos tempos actuais, já para não dizer de todos os tempos: o altruísmo. Muita desta gente, que não dissocia, portanto, o bem próprio do bem comum, está (paradoxalmente ou talvez não, ou claro que não), ela mesma, desempregada. Ora, se entre muita desta gente há gente com talento nas mais variadas áreas, e se vivemos numa época em que essas mais variadas áreas têm sempre algo ver entre si, como que a dizer-nos, a bold, que toda essa gente tem sempre muito a ver entre si, por que não juntá-la, pô-la a debater ideias e, mais ainda, já que facilmente se constatará que a generalidade dessas ideias são comuns, unir as suas mentes e mãos no desenvolvimento prático daquilo que foram calando, reprimindo, protelando, à espera de que o circuito "público", que o mesmo é dizer circuito dos poderes, ou do poder (governantes, políticos, empresários, banqueiros, patrões dos media, respectivos testas de ferro e mangas de alpaca, dirigentes desportivos, etc.), se cansasse da sua exclusividade ou, depois de esgotar as suas ideias e já não ter mais valores sociais para delapidar, lhes desse um tempinho de antena. Muito corre por aí que, hoje em dia, face aos instrumentos tecnológicos, não há quem se possa queixar de falta de auditórios, de palcos, de palanques, de púlpitos e altares, porque isto é uma democracia generalizada e todos, se quiserem, podem fazer-se ouvir. A falácia deste raciocínio está no facto de que desvaloriza, (in)justamente, o sentido de comunidade, a importância fundamental de meios de convergência, como são, por natureza, os meios de comunicação social, ao mesmo tempo que quem o sustenta e defende não abdica das suas posições dominantes e influentes nesses mesmos meios. Por isso, meus amigos, tenho para mim que, com tanto potencial humano que há cá fora (e quando digo potencial humano sinto um arrepio, não deve ser por acaso), podemos nós próprios fazer, neste caso aqui no Porto, um jornal, um jornal a sério, um jornal das pessoas, das vozes esquecidas, das ideias silenciadas. Pela rua, pela cidade, pelo País. Por nós. Posso já sugerir um nome: Olho da Rua. E termino apelando a jornalistas, gráficos, gestores, médicos, advogados, picheleiros, arquitectos, trolhas, prostitutos, domésticos, estofadores, professores e demais profissionais cansados de fazer aquilo de que não gostam e ansiosos por poder participar em algo que contribua para uma sociedade mais justa e equilibrada: dêem-se a conhecer, proponham-se. Criemos um espaço funcional onde nos possamos encontrar e contar não armas mas argumentos, para ver o que está ao nosso alcance construir, na certeza de que andará sempre entre o nada e o tudo.

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